Capitão José Salviano de Souza
A transferência da Real Biblioteca Portuguesa para o Brasil em 29 de outubro de 1810 deu origem à Biblioteca Nacional do Brasil. Por essa razão, o Brasil comemora o Dia Nacional do Livro nessa data.
Daí a crônica homenageando livros e leitores.
Nosso primeiro encontro foi há mais de vinte anos em um coletor de lixo.
Revelações de um ligeiro raio X
Sinais visíveis de envelhecimento: parte externa um pouco desgastada, lombo reforçado com curativos, partes internas amareladas, sem orelhas e sem riscos ou quebrados.
A aparência castigada não me desanimou; dei-lhe a mão e prometi cuidados. Um contato mais íntimo revelou-me que ele guardava coisas importantes e tinha algo a partilhar.
Para os curiosos posto identidade e foto do meu amigo:

Ecce liber!
As informações sobre o autor encontrei na terceira folha, sob o título “Notas da Editora”. Impressas em letras tão miúdas que resolvi deixá-las para outra ocasião.

Um detalhe na contracapa despertou minha atenção: dois furinhos. Não lhes dei maior importância. O conteúdo parecia bem digestível.
Não resisto a um livro fechado. Abri-o e folheei-o, lendo pequenos trechos. A linguagem me era afeita, cenários e assuntos, parte do meu viver infantojuvenil.
Declarei-o, pois, minha propriedade! A partir daquele momento, o livro era meu.
Em casa, sentei-me e mergulhei na leitura, ou melhor, nas aventuras daquela turma. O livro não contava apenas uma história: passava um filme na cabeça do leitor.
O vocabulário familiar e o assunto cativante me absorveram. Nem me dei conta quando caí nos braços de Morfeu.
Na manhã seguinte, café com leitura.
Quando me avisaram que o almoço estava na mesa, minha navegação já ia pela página 135, metade do livro, quase.
Minha grande surpresa! Eu não estava sozinho naquela viagem.

Uma traça.
Ela tinha chegado primeiro, os dois furinhos da contracapa eram a prova.
Não lhe perguntei quando começara a leitura nem se valia eu ir atér o fim.
As aparfências poderiam enganar-me, mas o entusiasmo da concorrente me deu mais ânimo.
Não trocamos informações; fiz apenas um pedido: não me conte como termina a história e virei a página. Aventura tem que ter expectativa e surpresas.
Cheguei a pensar em pedir explicações sobre seu método de leitura, sobretudo aquela maneira de avançar pelo livro em sentido contrário ao meu. Desisti.
Afinal, ela devia ter vindo de longe. Talvez do Irã, Israel, Paquistão ou Afeganistão, países onde há línguas escritas e lidas da direita para a esquerda.
Naquele momento me interessava mais o desenrolar da história.
Seria ela uma traça estrangeira?
Não percebi nela traços de xenofobia; apenas de voracidade e procurei corresponder.
Afinal, somos os dois vorazes “devoradores” de livros.
