Capítão José Salviano de Souza
Para minha mãe era pura mania. Onde já se viu encher o feijão de farinha pra depois ter que botar molho porque ficou seco? Era só não pôr farinha que não carecia de molho, ora essa!
Já meu pai dizia que era questão de gosto. Sem farinha, o feijão ficava desenxabido (2), seco, até difícil de comer, embuchava (3). Daí o molho, pra descer mais fácil. Com pimenta, então, era de chupar os beiços.
O certo é que sempre tinha farinha e molho apimentado pro meu pai comer. Mãe não deixava faltar.
— Pega o cotó (4) e vai buscar uns quiabos pra fazer o molho do seu pai.

— Quanto que é “uns”, mãe?
— Se tiver grande, seis tá bom.
— E se for pequeno?
— Vê um tanto que cabe nessa panelinha aqui.
Lá fomos nós, eu e a irmã. Cata aqui, cata ali, já tinha um punhado na cuia. Minha irmã esticou o braço por baixo da folha pra pegar um quiabo, deu um grito e correu pra dentro, num berreiro só.
— Que que foi, menina? Viu assombração?
— Um bicho me mordeu, mãe!
— Mordeu onde? Na perna? Ai, meu Deus! Será que foi cobra?
Entrei logo atrás, a cuia de quiabo numa mão e, na outra, a folha em que a mana tinha encostado.
— Foi bicho não, mãe. Foi tatarana que sapecou ela. Aqui, ó! Tatarana Bezerra!
— Louvado seja Deus! Põe essa folha no rabo do fogão, pega um garfo pra mim e passa esse cotó aqui.
Ela virou a lagarta de lado, prendeu-a com os dentes do garfo e, com a mão direita, apertou sua barriga. Saiu uma gosma verde.
Com o cotó, minha mãe pegou um pouco daquela coisa, me entregou e agarrou minha irmã.

— Passa isso aí no sapecado (5).
Minha irmã gritava e esperneava que nem porco esfaqueado, mas mãe sojigou (6) ela, e eu passei a meleca.
Um minuto depois, a irmã já não sabia se ria ou chorava e danou a gritar:
— Sumiu! Sumiu! A dor sumiu!
Parecia até que tinha tirado com a mão.
— Mãe, onde a senhora aprendeu isso?
— Foi Sinhana, a benzedeira, que ensinou.
— Mas isso não tem nada com benzer.
Daí a conversa foi parar em outras coisas que
Sinhana sabia e praticava.
— É que além de fé, ela tem ciência. Se tatarana ou mandruvá (8) sapecar, é só passar o intestino que a dor some na hora. Foi o que ela falou.
— Reza também, ela sabe um tantão.
— Por que a senhora não fala pra ela ensinar umas? Daí não precisa ficar levando a gente pra benzer.
— Pensa que não pedi?
— Qual que ela ensinou?
— Mau-olhado e quebranto7.
— Fala pra gente ver.
— Pode falar à toa, não. Só no caso de precisão.
— Mãe, acho que tô com mau-olhado. Xinguei um menino na escola ontem e ele me olhou com olho atravessado. Fiquei até com medo.
— Tá. Vou te benzer. Pega três galhinhos de sabugueiro (9) pra mim.

— Pra quê?
— Faz parte da reza.
— E eu faço o quê?
— Fecha os olhos que eu vou repetir três vezes:
“Credo em Cruz,
Inimigo da Luz!
Antes de você me olhar
Quem me olhou foi Jesus!”
— Pronto. O mau-olhado foi tirado…
— Mãe, a senhora sabe benzer vento virado 10) também?
— Sei, mas não vou fazer. Vento virado dá só em menino pequeno.
— Acho que nem tô precisando. O meu deve tá no rumo certo…
Meu pai dizia sempre:
“A natureza tem veneno e tem remédio. O que é preciso é ter ciência.”
E eles tinham.
Sobretudo aquela aprendida na prática, na experiência, na observação e passada de boca em boca.
Esta ciência garantiu nossa sobrevivência.
José Salviano de Souza
Vocabulário:
1 –Tatarana: Taturana, Lagarta de fogo.
2 – Desenxabido (ou desenxavido): Sem sabor, sem gosto. Diz respeito a comidas ou bebidas insípidas, insossas ou sem tempero.
3 – Embuchar: Comer muito, saciar-se. Encher o estômago (o “bucho”) de forma rápida ou sem mastigar direito. Empanzinar-se, empanturrar-se.
4 – Cotó: quebrado, no caso pedaço de faca.
5 – Sapecado: Local queimado ou chamuscado. O contato da tatarana bezerra com a pele humana provoca reação inflamatória aguda e imediata na pele. A dor violenta e imediata causa sensação de queimação ou “fogo”.
6 – Sojigar: conter, subjugar, prender alguém normalmente usando força.
7 – Quebranto: Termo da tradição popular que define estado de mal-estar, cansaço ou doença atribuído ao mau-olhado, à inveja ou ao excesso de elogios. É considerado o desequilíbrio energético ou feitiço involuntário provocado pelo “olho gordo” ou pela admiração excessiva de alguém.
8 – Mandruvá (ou mandavorá): Lagarta de fogo.
9 – Sabugueiro: Espécie arbustiva cujos frutos e flores são utilizados como medicamento, alimento e corante.
10 – Vento virado (ou ventre virado): Expressão popular associada a crenças antigas sobre mal-estar em bebês e crianças após sustos, quedas leves ou movimentos bruscos.

4 Comentários
Salve, Salviano… Lá por Terenos, essa TATURANA é conhecida como taturana-cachorrinho… tem muito em milharal seco. Quando se vai colher as espigas a danada fica sempre na ponta da espiga…. o peão vai segurar a espiga e pega exatamente em cima dela…. É dois dias de febre… com direito a uma enorme INGUA no sovaco. … Pena que só agora aprendi a usar a meleca das tripas dela….KKKKK Parabéns….
Olá Higino! Aprendi cedo a artimanha e tive oportunidade de emprego vida afora (caminhadas de Infante). Para você que curte regionalismos, sugiro a leitura de Vila dos Confins do carmelitano mineiro Mário Palmério. Leitura fácil e cativante.
Minha querida mãe,teve seu braço atingido por uma “Taturana), citada, foi parar no hospital.
Ah se eu soubesse essa ( simpatia) de retirar e passar o intestino da malvada, teria dado um alívio à ela.
Salviano é muito verdadeiro em seus contos, parabéns à revista por tê- lo como parceiro.
Rafael, apesar de minha mãe ter ensinado cedo, levei muita sapecada . Fico satisfeito de poder difundir estas crenças.