Por Andréia Velho
Especialista em Negócios Internacionais e cofundadora de As Litteratas
Valeria Cossati compra um caderno preto por impulso, num domingo em que sua venda era proibida. O que começa como um simples desabafo transforma-se em diário secreto. Ao registrar o cotidiano de esposa, mãe e funcionária, ela começa a enxergar com clareza a mulher que existe por trás dos papéis que exerce. O romance se desenrola inteiramente nas páginas desse caderno: uma transformação silenciosa e profunda.
A primeira reação é de rejeição. A protagonista parece aderir com naturalidade a um modelo feminino de submissão, o que me gerou um incômodo imediato e quebrou a minha primeira impressão de que ela “poderia ser mais”.
Esse incômodo parte de um julgamento apressado. A leitura começa projetando um ideal contemporâneo sobre uma personagem situada em outra lógica social. O livro, aos poucos, desmonta esse impulso inicial.
Alba de Céspedes não transforma Valeria em uma figura revolucionária. Esse seria o caminho mais fácil. O romance mostra que ela não é apenas vítima da dinâmica familiar, mas também participa da manutenção desse sistema, vigiando desejos e sentindo culpa diante de qualquer possibilidade de liberdade. A identidade da protagonista foi tão fortemente moldada pelo ideal de mulher daquela época que esse papel passou a definir o seu próprio valor.
Outro ponto interessante é que o romance desmonta a ideia de que consciência necessariamente produz libertação. Em Caderno Proibido, ela produz sofrimento. Quanto mais Valeria entende a própria condição, mais difícil se torna permanecer na mesma rotina.
Confesso que o final me decepcionou. O ato de queimar o caderno é decisivo: ele não apaga aquilo que ela compreendeu, mas destrói a possibilidade concreta de transformação.
Em muitos momentos, tive a sensação de que tamanha lucidez levaria Valeria, finalmente, a mudar de vida. Depois de tantas páginas de análise interna, esse parecia um caminho inevitável. Criei a expectativa de que ela rompesse com alguma estrutura: não apenas com o casamento, mas principalmente com a versão de si mesma que sustentou durante anos.
E, pensando melhor, talvez esteja justamente aí uma das partes mais honestas do livro. Ao mesmo tempo em que fiquei frustrada com a personagem, também achei difícil não reconhecer o quanto esse movimento é profundamente humano. Romper não é simples, sobretudo quando a própria infelicidade não parece suficiente para justificar a ruptura. Nem sempre a consciência vem acompanhada da coragem necessária para reorganizar uma vida inteira.
Alba de Céspedes nasceu em Roma em 1911, filha de uma italiana com um embaixador cubano no país. Estreou na literatura em 1935 com os contos L’anima degli altri, e publicou uma série de romances, entre os quais Ninguém volta atrás (1938), Dalla parte di lei (1949), Caderno proibido (1951), A rebolona (1967) e Nel buio della notte (1976). Envolvida com a pauta antifascista, fundou a revista Mercúrio, em 1944, e no pós-guerra dedicou-se a escrever para o cinema, o teatro, o rádio e a televisão. Morreu em Paris, em 1997.

FICHA TÉCNICA
Título: Caderno Proibido
Autora: Alba de Céspedes
Editora: Companhia das Letras
Publicação: 2 de maio de 2022
Edição: 1ª
Idioma: Português
Número de páginas: 288 páginas

- Andreia Velho é especialista em negócios internacionais e cofundadora de As Litteratas.
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6 Comentários
Excelente coluna de um excelente livro. A gente quer sonhar que ela poderia ter tido mais coragem e mudar de vida. Mas quem disse que era o que ela realmente queria? O livro tomou o rumo certo na minha opinião, gostei do destino final da personagem, achei muito coerente. E como me gerou angústia e reflexão! Parabéns pela coluna.
Adorei a reflexão e o estilo da coluna. Parabéns.
Fiquei muito curiosa com o livro! Parabéns pela coluna!
Excelente comentário Andréia.
Estava pensando em ler o Caderno Proibido, agora com esse teu enfoque me trouxe a certeza. Comentário inteligente e interessante
Excelente reflexão . Fiquei curiosa . Anotada a referência para a próxima leitura !
Olá, este livro ficou entre as minhas 5 melhores leituras de 2025. Fiquei fascinada e cada vez mais confirmo que a literatura italiana me encanta. A Valéria é prisioneira de si mesma, primeiramente. Esta é a amarra mais difícil de romper. Eu também fiquei, não decepcionada, mas surpresa com o final. Como você disse, seria óbvio para um final feliz e que agradasse aos leitores, mas pouco óbvio na vida real; principalmente na época na qual a história se passa. Eu quero ler tudo de Alba. Também tenho um clube de leitura e, para 2027, quero indicar Antes e depois. Até mais.