A imagem dos morros cariocas atualmente é associada mais à criminalidade e ao tráfico de drogas. Mas eles tiveram papel fundamental na formação e na difusão do samba.
Os morros cariocas
A Estação Primeira de Mangueira, fundada em 1928, tornou-se um dos grandes centros de criação do samba e revelou compositores como Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho. O Salgueiro desempenhou papel decisivo na renovação dos desfiles das escolas de samba.
Apesar de o funk haver ganho força nas comunidades do Rio sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, o samba não desapareceu dos morros. Mangueira, Salgueiro, Portela, Império Serrano, Unidos da Tijuca e outras comunidades continuam vinculadas ao samba e ao carnaval.
A figura do malandro
O “malandro” tornou-se uma das figuras simbólicas do samba carioca.
“Malandro” não significava necessariamente criminoso. Era o sujeito esperto, irreverente, boêmio, elegante, avesso ao trabalho convencional, habilidoso com as palavras e capaz de driblar as dificuldades da vida.
Essa figura aparece em sambas das décadas de 1930 e 1940. A malandragem tornou-se uma espécie de personagem social do samba, com sua própria linguagem, vestimenta, postura e código de comportamento.
Nesse ambiente de samba e malandragem, surgem sambas de humor, de crítica e de sátira, nos quais o compositor brincava com situações, autoridades, relações amorosas, dificuldades e até consigo mesmo.
O samba de breque
O samba de breque, subgênero do samba normalmente de sátira ou crítica, se caracteriza por paradas súbitas na instrumentalização (“breques”, do inglês break) para que o cantor encaixe falas, comentários ou crônicas.
Em vez de simplesmente cantar a história, o intérprete dialoga com a música e faz observações irônicas ou cômicas sobre o tema.
O samba de breque elevou a característica da malandragem a nível especial.
Luís Barbosa
Para muitos, o sambista Luís Barbosa foi o inventor do breque no samba, com inovações peculiares ao gênero.
Usava chapéu de palha como pandeiro para auxiliar na condução dos breques que ele introduzia ao samba, com o cantar cheio de bossa e suavidade.
Gostava de dar breques aos sambas a fim de dar mais visibilidade a sua bossa.
Moreira da Silva (1902–2000)
Moreira da Silva tornou-se a principal referência do samba de breque e construiu persona artística associada ao malandro, especialmente por meio do personagem Kid Morengueira.
Sua interpretação transformava o samba quase numa pequena cena teatral: havia narrativa, interrupção, comentário, ironia e diálogo com o público.
Em 1936, durante show em um cinema no Meyer, bairro do Rio de Janeiro, Moreira cantava o samba “Jogo proibido”, de Tancredo Silva, e resolveu prolongar os breques, introduziu frases da linguagem popular pitoresca dos malandros no samba e aí desenvolveu o samba de breque.
Os breques longos e falados são a razão de ser do samba de breque, que se transformou na mais pitoresca e espirituosa modalidade de samba.
Moreira da Silva permanece, ainda hoje, a principal referência do samba de breque pois foi quem o desenvolveu, popularizou e transformou em linguagem artística própria. Ele não foi apenas “cantor de samba de breque”; ele se tornou a personificação do gênero.
Ele construiu o personagem malandro Kid Morengueira com o terno de linho, chapéu Panamá, jogo de cintura, humor e improvisação.
Perdeu força
O gênero perdeu força a partir dos anos 1980. Conforme publicação dedicada à história do samba, o breque depende muito do intérprete com domínio do breque, da fala malandra, da improvisação e do timing cômico — características que Moreira dominava excepcionalmente bem.
Moreira da Silva não teve sucessor que assumisse o samba de breque com intensidade e projeção.
Bezerra da Silva e Dicró mantiveram o tema da malandragem, da crônica das ruas, do humor e da crítica social, mas não são continuadores do samba de breque.