Você com certeza já ouviu o velho ditado de que política, religião e futebol não se discute. Tenho cá minhas dúvidas… Hoje, fala-se muito mais abertamente sobre qualquer assunto, até por conta das redes sociais, e evitar essas discussões nem sempre é uma opção plausível ou realista.
Passadas as eleições, o saldo foi de amizades arranhadas, conflitos familiares e relações estremecidas, todos cheios de razão e com a certeza de terem provado um ponto.
A verdade de um argumento e a vitória em um debate são coisas distintas. Nem sempre quem vence é quem possui os melhores argumentos, mas quem domina os recursos retóricos e psicológicos da discussão. Aprendi com Schopenhauer.
Em 38 estratégias para vencer qualquer debate: a arte de ter razão, Schopenhauer não se preocupa em convencer o adversário de uma verdade — nada mais desgastante do que tentar convencer alguém —, mas em mostrar como vencê-lo numa discussão. Por exemplo:
- Generalize as afirmações do seu oponente;
- Mude os significados das palavras-chave;
- Confunda a argumentação;
- Mude as palavras do oponente para confundi-lo;
- Faça o oponente concordar de forma indireta;
- Utilize paradoxos — e outras 32 estratégias.
Uma das estratégias mais interessantes de Schopenhauer é a escolha das palavras: um mesmo acontecimento pode ser apresentado de maneiras completamente diferentes, dependendo de quem o descreve. O que para uns é uma reforma necessária, para outros é o desmonte de direitos; o que uns chamam de responsabilidade fiscal, outros classificam como insensibilidade social. E vice-versa.
A discussão, portanto, começa antes mesmo da apresentação dos argumentos, na escolha dos termos que serão utilizados. Não por acaso, durante as eleições, os adversários raramente conseguem concordar sequer sobre o nome que darão aos fatos. Cada lado constrói sua narrativa com palavras que despertam simpatia entre os aliados e rejeição entre os opositores. Alguns usam dessa tática com maestria.
Outra estratégia bastante comum é recorrer à autoridade para encerrar uma discussão. Cita-se um especialista, um intelectual famoso ou uma pesquisa de opinião, como se o prestígio de quem afirma algo fosse suficiente para demonstrar sua veracidade. Schopenhauer também chama a atenção para nossa tendência de aceitar ideias simplesmente porque muitas pessoas acreditam nelas.
Nas disputas políticas, esse recurso é especialmente conveniente: basta encontrar a personalidade respeitada pelo próprio grupo para que suas declarações sejam tratadas como verdades incontestes. Pouco importa se a afirmação está correta, se foi retirada de contexto ou se o interlocutor de fato domina o assunto.
O argumento de autoridade substitui a análise crítica e a popularidade de uma opinião passa a ser aceita como válida. Mas uma ideia não se torna verdadeira porque muitas pessoas concordam com ela.
Conhecer os mecanismos dessa disputa não significa utilizá-los de maneira desonesta. Significa também adquirir condições de reconhecer quando a argumentação deixa de ser racional e passa a ser manipulativa.
Um dos aspectos mais curiosos das discussões eleitorais talvez seja que as pessoas tendem a entrar nelas convencidas de que precisam defender suas ideias, mas acabam defendendo algo muito mais pessoal: sua inteligência, seu orgulho e a imagem que construíram de si mesmas.
Nesse contexto, admitir que o outro está certo deixa de ser um exercício de honestidade intelectual e passa a parecer uma derrota moral.
Essa interpretação dialoga diretamente com a tese apresentada por Karl Otto Erdmann na introdução da obra:
“Desafiar uma convicção soa como desvalorizar a personalidade; uma refutação é considerada acusação de inferioridade intelectual. Portanto, cada um se agarra desesperadamente às suas afirmações; mesmo aqueles que duvidam da legitimidade de sua causa, fazem todos os esforços para, pelo menos, parecer vitoriosos.”
Tendo a concordar com a citação atribuída a Charles Spurgeon (1834–1892), de que “Só os tolos acreditam que política e religião não se discutem. Por isso os ladrões permanecem no poder e os falsos profetas continuam a pregar”. Afinal, o problema nunca foi discutir política ou religião, mas transformar a divergência em uma disputa de vaidades. Se não houver capacidade de distinguir uma coisa da outra, o debate terá perdido sua finalidade antes mesmo de terminar.
Quanto ao futebol… se o Grêmio não for rebaixado, acabou a discussão.
