A crônica “O invisível ficou visível”, publicada pelo PORTALIMULHER, recebeu comentários de leitores no site da revista e no email e no Whatsapp do autor. Alguns leitores tiveram aguçadas lembranças de sua vida em que praticaram gestos de bondade e tornaram alguém visível.
O PORTALIMULHER resolveu publicar textos de seus leitores, com a finalidade de mostrar que o Bem se faz mais presente que supomos e que, invariavelmente, os autores de gestos bondosos se sentem recompensados espiritualmente pelo bem que praticam.
EU TORNEI ALGUÉM VISÍVEL
por Leslie de Lyzieux Deslandes Ribeiro
Meu nome é Leslie de Lyzieux Deslandes Ribeiro, mineira de Juiz de Fora, casada, aposentada, dois filhos. Fui criada por minha avó paterna, Emília Petraconi Deslandes, descendente de italianos vindos para o Brasil fugindo da guerra, viúva e dependente de pensão paga pelo antigo IPASE (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado).
Tive formação moral e religiosa de acordo com os preceitos mais antigos. Aprendi desde cedo a amar a Deus, amar e respeitar as pessoas, os animais e a Natureza e ter por todos compaixão.
O habitual no mundo é sermos todos invisíveis uns para os outros, exceto naturalmente parentes, amigos e profissionais que nos atendem. Cruzamos com pessoas pelas ruas e shoppings com indiferença. É o nosso cotidiano.
Mesmo em grupos de Whatsapp, normalmente somos invisíveis para a maioria de seus integrantes. Trocamos mensagens de bom dia, mensagens enlatadas sobre música, sobre política ou autoajuda. Nós nos comunicamos com o grupo, com o coletivo. Com quantas pessoas do grupo já conversamos? A quantas demos atenção de conversa e afeto? A quantas pessoas expusemos sentimentos ou emoções?
O artigo do PORTALIMULHER sobre tornar alguém visível me deu o que pensar. Sempre olhei com muito carinho para os menos favorecidos. Apesar de ter tido um lar com algum conforto, tive infância e adolescência penosas, o que me ajudou a ter visão de compaixão para com os menos favorecidos. Tive família!
Aos 18 anos comecei a trabalhar e isso me fez ver mais de perto as tristezas das pessoas que cruzavam meu caminho. Gostava de ajudar as pessoas das ruas.
Um dia, subindo por uma avenida de Belo Horizonte, ajudei uma mulher grávida a empurrar seu carrinho de sucatas rua acima. A gente não conversou. Pus a bolsa a tiracolo, coloquei as mãos no carrinho e fomos as duas a empurrar o carrinho. De vez em quando, ela olhava para mim e sorria. Emocionada, eu respondia ao sorriso dela. Cheguei ao Banco para trabalhar suada e feliz.
Não são somente as pessoas remediadas que tornam visíveis as pessoas carentes: também elas nos dão visibilidade em forma de gratidão, de troca de emoções e até de lição de vida. Narrarei uma lição, que aprendi de uma moradora de rua, que muito me emociona até hoje.
Em 1983, depois de 8 anos de namoro e noivado com um homem apaixonante, marcamos o casamento. Nossa vida era com poucas receitas e muitas despesas; ele, recém-formado engenheiro, e eu digitadora do Banco Real. Coordenamos nossas despesas habituais com as do casamento: enxoval, vestido, documentos, onde morar… Não sobrava dinheiro pra nada.
Minha avó/mãe querida já havia falecido. Éramos, portanto, nós dois e nossos sonhos!
Fui sozinha ao cartório providenciar os papéis do casamento. Apreensiva, temia pelos custos que teria e ansiosa por estar prestes a mudar a minha vida.
Uma fila enorme começava na porta do cartório e se estendia pela rua.
Entrei na fila e, enquanto refazia mentalmente as contas das despesas, aproximou-se de mim uma mulher, moradora de rua, e me perguntou qual o motivo da fila. Expliquei a ela que as pessoas aguardavam a abertura do cartório para resolver assuntos ligados a certidões de nascimento, casamento e afins. Ela, então, começou a conversar comigo, contando fatos da sua vida, suas dificuldades, de onde veio… Coisas do dia a dia dela.
Trocamos confidências; era um papo gostoso entre pessoas que estavam se conhecendo no amanhecer de novo dia.
Como sempre gostei de ajudar as pessoas, fiquei preocupada pensando sobre o que responder quando ela me pedisse ajuda. Afinal, o dinheiro estava contado para pagar as despesas do cartório. Eu certamente a decepcionaria quando lhe dissesse que não poderia ajudá-la.
A nossa conversa durou bom tempo, bem mais de meia hora. Quando a fila andou e chegou minha vez de entrar no cartório, olhei com carinho pra ela e, constrangida, disse-lhe que, apertada com as despesas do casamento e com o dinheiro contado pra pagar as custas do cartório, não tinha um dinheirinho para dar a ela.
A senhora, moradora de rua, abriu largo e doce sorriso de gratidão e, colocando suas mãos sobre as minhas, disse: “Não quero dinheiro, só queria conversar com alguém”!
Nós nos despedimos, e eu entrei no cartório chorando, pois tinha acabado de dar a ela o que nunca imaginei que alguém precisasse tanto: atenção, meus ouvidos, um pouco de mim e carinho.
Aprendi com ela que atenção, carinho e solidariedade podem fazer mais diferença que dinheiro e que podem dar maior visibilidade a alguém.
Eu a vi! Eu a tornei visível por meio da minha solidariedade, muito mais importante para ela que dinheiro naquele momento.
Ela me viu e me tornou visível, porque me ensinou grande lição e me transmitiu a emoção que sinto até hoje ao relembrar o fato.
Esse ensinamento permanece em mim por toda a minha vida e lá se vão 39 anos. Sinto orgulho de ter vivido tão emocionante momento.
Fico emocionada todas as vezes que lembro o episódio, razão pela qual resolvi compartilhá-lo com as amáveis leitoras do PORTALIMULHER.
Leslie de Lyzieux Deslandes Ribeiro
Belo Horizonte, Julho de 2022
3 Comentários
São pequenas atitudes que nos tornam grandes no coração de quem recebe.
Que seus textos sirvam para brotar comentários que possam reverberar e despertar em outras pessoas atitudes semelhantes.
Obrigada por compartilhar a tua história, Leslie!
Leslie, agradecida por compartilhar essa lembrança!