Por Juliano Neto
‘’A Morte de Ivan Ilitch”, novela ficcional ambientada na Rússia do final do século XIX, foi a primeira obra literária escrita por Tolstói após seu retorno à literatura.
Depois de ‘’Anna Karenina’’, publicada ainda na década de 1870, Tolstói entra em profunda crise existencial e se viu confrontado pela inevitabilidade da morte, mas conseguiu se reencontrar na fé cristã. No entanto, sua filosofia cristã, fundamentada principalmente na passagem do Sermão da Montanha e na busca de uma vida ascética, o colocou fatalmente em conflito com a doutrina da Igreja Ortodoxa Russa. Após a publicação do romance em tom messiânico ‘’Ressurreição’’ em 1899, uma pesada crítica à Igreja enquanto instituição, Tolstói acabou sendo excomungado pelo Santo Sínodo em 1901.
Em ‘’A morte de Ivan Ilitch’’ o autor faz uma crítica à hipocrisia da alta sociedade burguesa e à superficialidade das relações sociais baseadas em convenções de aparência, o que não é exatamente uma novidade em se tratando de Tolstói. No entanto, nessa obra, esse sentimento avança para uma sensação de perda de sentido na vida e falta de propósito na existência humana.
O livro começa narrando a notícia do falecimento do juiz de instrução Ivan Ilitch Golovin aos colegas de tribunal. Logo de início, torna-se evidente a superficialidade das relações humanas, pois é possível perceber que o primeiro impacto nos colegas, após o choque inicial (embora passageiro) da notícia da morte de Ivan, foi o cálculo do impacto que tal acontecimento teria em suas próprias promoções e transferências como juízes do tribunal.
‘’Agora, certamente receberei o posto de Stábel ou de Vínikov – pensou Fiódor Vassílievitch. Isto já me foi prometido há muito tempo, e esta promoção significa um aumento de oitocentos rublos, além da chancelaria.’’
‘’Será preciso agora pleitear que meu cunhado seja transferido de Kaluga – pensou Piotr Ivânovitch-, minha mulher ficará muito contente. E não se poderá mais dizer que eu nunca fiz nada pelos parentes dela.’’
Mais a diante, o texto volta no tempo e descreve o início da vida adulta de Ivan Ilitch, narrando seu casamento por conveniência com sua bela esposa, Prascóvia Fiodorvna Michel, que se revela egoísta e insensível ao sofrimento do marido quando ele começa a enfrentar agonia devido às dores de sua futura e misteriosa doença.
Avançando no tempo, já estabelecido com sua família em São Petersburgo, Ivan, por volta dos quarenta e cinco anos, adquire uma misteriosa doença que nunca chega a ter seu diagnóstico esclarecido no texto. À medida que sua condição piora, torna-se inevitável seu afastamento das obrigações sociais. Neste momento, a única pessoa que faz companhia a Ivan é Gerasim, o criado da família.

À medida que Ivan percebe que seu fim se aproxima, a consciência da morte torna-se cada vez mais presente em seus pensamentos. Isso leva o protagonista a embarcar em uma jornada interior, cheia de arrependimentos por não ter vivido a vida que deveria ter vivido, optando pela comodidade de uma existência supérflua e sem sentido. Agora, ele oscila entre estados de esperança e desespero, amargando a solidão nos momentos finais de sua vida.
‘’Mas o que é isto? Para quê? Não pode ser. A vida não pode ser assim sem sentido, asquerosa. E se ela foi realmente tão asquerosa e sem sentido, neste caso, para quê morrer, e ainda morrer sofrendo? Alguma coisa não está certa’’.
‘’Talvez eu não tenha vivido como se deve – acudia-lhe de súbito à mente. – Mas como não, se eu fiz tudo como é preciso?’’
‘’Mas, por mais que pensasse, não encontrou resposta. E quando lhe vinha o pensamento, e vinha-lhe com freqüência, de que tudo aquilo ocorria porque ele não vivera como se devia, lembrava no mesmo instante toda a correção da sua vida e repelia esse pensamento estranho’’.
‘’A Morte de Ivan Ilitch’’ não oferece respostas definitivas para essas questões; pelo contrário, deixa o leitor com dúvidas. Talvez seja nesse ponto que resida a força da narrativa. É impossível para o leitor não questionar as limitações da existência humana, a efemeridade da vida e o destino comum que nos aguarda a todos. Por fim, nos faz refletir se estamos vivendo a vida que deveríamos viver.
Considerada uma das novelas mais perfeitas, conforme Nabokov, e uma das obras-primas da literatura russa, esta é uma leitura que recomendo fortemente.
A morte de Ivan Ilitch
Autor: Liev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora : Editora 34; 2ª edição (1 janeiro 2009)
Idioma : Português
O paranaense Juliano Neto é economista, formado e pós-graduado em Administração e Finanças pela UEPG e trabalha atualmente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.