“Matutices” são caipiradas do matuto (arigó, caipira, jacu, capiau) que se denuncia quando vai à cidade. O sufixo “ice” forma substantivo, significando ação, resultado de ação e qualidade.
Interessante a etimologia da palavra matuto. Provém de mato + uto (sufixo nominal, de origem latina, que traduz a ideia de referência, de ligação). “Matuto”, portanto, tem ligação com o mato.
Pode ser que de “matuto” venha o verbo “matutar”, que significa “pensar, ruminar, cismar”, porque o matuto é naturalmente retraído, acanhado e desconfiado. Em geral, o matuto vive a matutar.
O matuto pode estar em extinção em razão da evolução e do progresso, mas guardo na lembrança os matutos que vi durante minha infância em Terenos, hoje no Estado de Mato Grosso do Sul. Relembro-os com saudade e com afeto, em razão da simplicidade que eles me inspiram.
No Mato Grosso, o matuto morava em fazendas, chácaras ou comunidades isoladas e, uma vez ao ano, ia à cidade para fazer compras depois de vender a produção.
Não raro, ia à cidade a pé: dez, quinze quilômetros. Pé no chão e calçado numa sacola, em geral um saco de estopa, daqueles que se ensaca feijão, arroz, milho… Sapato é caro. Se acontecesse alguma coisa com o pé, ele sarava. Se acontecesse alguma coisa com o sapato, tinha que comprar outro.
Um morador na entrada da cidade, bom samaritano, permitia ao matuto lavar os pés e calçar os sapatos. O pé, não muito domado, ia sofrendo no calçado, e o matuto caminhava se equilibrando como se andasse em locais com pedras soltas.
Ou ia a cavalo. Não raro, dois no mesmo cavalo, como nas imagens dos templários. O bom samaritano na entrada da cidade lhe permitia desencilhar os cavalos e colocá-los na soga, como diria um gaúcho. (Soga é a guasca usada para prender animais ao poste).
Às vezes, o matuto ia de carona. Em geral, na carroceria de algum caminhão que levava mercadoria pra cidade. Todos de pé, com calçados, segurando no gigante da carroceria, tomando vento no rosto. As mulheres prendiam a saia do vestido entre as pernas, pra não mostrar demais; os homens seguravam o chapéu afundando-o na cabeça.

Uma das dificuldades que o matuto tinha na cidade era atravessar as ruas.
Ainda hoje, cidade pequena não tem semáforo e nem faixa de pedestre; muito menos nos tempos dos fatos desta crônica. O matuto e sua prole sofriam para atravessar a rua. Prole, em geral, de quatro a cinco filhos. O pai pegava na mão de dois, a mãe, a mão dos outros dois e o mais velho segurava na saia da mãe. Ficavam num “vai e não vai” no meio da quadra, nunca na esquina, mas de olho nos carros.
O cérebro do matuto parece não ser ajustado às velocidades de veículos; mais fácil avaliar a velocidade de galope de cavalos. O matuto e sua prole não atravessavam a rua enquanto ela não estivesse completamente sem carro.
Quando a rua ficava livre, eles começavam a atravessá-la. Se aparecesse um carro ao longe, o matuto e família voltavam embolados para onde estavam inicialmente, atropelando-se. Um amigo chamava de “processo de galinha”.
Matuto nunca atravessa a rua seguindo em frente num lanço. Sentiu ameaça volta pra origem, mesmo que quase tendo atravessado a rua. O motorista que arrisca passar por trás do grupo se arrebenta: na volta à origem, matutos só olham para o chão.
Ao andar pelas ruas, o grupo ia de mãos dadas pelas calçadas. O pai, mais acaipirado, segurava as crianças pelo punho, bem apertado pra não perdê-las ou para evitar que um veículo, num descuido, a atropelasse. Apertava tanto que a mão das crianças ficava roxa, cianótica. As adolescentes meninas iam de braços dados, o que na região Norte chamam de “andar de chaleira.”
As compras eram colocadas num saco, e o marido era o responsável pelo carreto. Segurava o saco de estopa pela boca e o colocava no ombro.
Pela tarde, pegavam o caminho de volta. Todos felizes, comentando o que viram de interessante. Contar as novidades aos vizinhos e parentes era a ansiedade maior que o fazia esquecer a canseira e andar quase correndo quando a volta era a pé.
Guardo bem essas imagens com bastante nitidez porque a casa de meu avô, em Terenos, era a casa do bom samaritano que apoiava o povo que vinha das colônias, em particular da conhecida “Colônia Velha”.
Tive a sorte de ver, viver e guardar esses momentos bucólicos, o que é possível somente para quem conviveu com “matutices”.
Higino Veiga Macedo. Coronel do Exército de Engenharia, Veterano da turma de 1971 da Academia Militar das Agulhas Negras, nasceu em Terenos, MS, em 11/01/1948.

1 comentário
Crônica perfeita para paramos e pensarmos no cotidiano. Parabéns!!!!!!