Maria Madalena, figura histórica e religiosa, é objeto de intensa especulação. As mais conhecidas são de que ela teria sido prostituta e se converteu ao Cristianismo e a de que ela teria se casado com Jesus Cristo.
Os Evangelhos não oferecem dados que permitam deduzir nenhuma das duas interpretações.
OS EVANGELHOS CANÔNICOS
Os quatro evangelistas canônicos – Mateus, Marcos, Lucas e João – citam o nome de Maria Madalena 12 vezes, mais do que a maioria dos Apóstolos e mais do que qualquer outra mulher, exceto Maria, Mãe de Jesus. Seu “sobrenome” – de Magdala ou Madalena – significa que ela veio de Magdala, cidade de pescadores nas costas do Mar da Galileia.
Os evangelistas Marcos e Lucas citam Madalena como a mulher de quem Jesus expulsou sete demônios. Naquela época, acreditava-se que os demônios causavam doenças físicas ou psicológicas. Por outro lado, o número “7” pode ser simbólico, significando o fim, como se ela estivesse completamente dominada por doenças físicas ou psicológicas, as quais Jesus curou.
Liberta dos “demônios” e curada, natural que Madalena cultivasse grande devoção e profunda gratidão por Cristo, o que pode ter aproximado os dois e fez com que ela se tornasse sua fiel discípula e apóstola.
Não há nenhuma passagem ou referência na Bíblia que permita concluir que ela era prostituta ou que tenha se casado com Jesus Cristo.
POR QUE PROSTITUTA
O Evangelho de Lucas (Lc 7; 36-52) descreve a cena de uma mulher pecadora que ungiu, lavou e beijou os pés de Cristo na casa de um fariseu. São Lucas não cita o nome da mulher; diz apenas “mulher pecadora”.

No Século VI, o Papa Gregório Magno (foi papa de 590 a 604) identificou a “mulher pecadora” como Maria Madalena.
Com o tempo, a ideia de “mulher pecadora” evoluiu para “prostituta”, pois não havia, nem há, pecado maior ou ofensa maior para a mulher que a prostituição. A pecha colou, e Madalena passou a ser vista como a prostituta que se converteu ao Cristianismo.
Essa concepção permaneceu por 1.500 anos, até 1945, quando um camponês encontrou a coleção de textos gnósticos do Cristianismo primitivo em Nag Hammadi.
VERTENTES INICIAIS DO CRISTIANISMO
Gnosticismo é o conjunto de ideias filosóficas e religiosas que floresceram no início do Cristianismo e pregava o conhecimento como forma de alcançar a salvação espiritual. Segundo os gnósticos, o Mal provém da ignorância e do desconhecimento, e o que leva à salvação é a busca da verdade interior, do conhecimento espiritual e da experiência direta com Deus.
Em sua origem, o Cristianismo tinha duas vertentes. Uma delas era a dos Apóstolos, que minimizava o papel das mulheres e seguia uma linha hierárquica sem espaço para as mulheres. Esta a vertente de São Pedro e de São Paulo.
A outra vertente, liderada por Maria Madalena, era contra a linha hierárquica e defendia espaço para as mulheres, pois Jesus esteve próximo delas e deu-lhes atenção.
Na disputa entre as duas vertentes, Maria Madalena perdeu e o papel das mulheres no Cristianismo ficou obscurecido. Até 1945, pelo menos.
Uma passagem do evangelho apócrifo de Valentino retrata bem a disputa entre os Apóstolos e Madalena e os ciúmes deles em relação a ela.
O evangelho apócrifo de Valentino trata das explicações que Cristo, ressuscitado, deu aos discípulos acerca da Sabedoria e dos mistérios do mundo. Nele é descrito que Jesus dava uma explicação e pedia a um apóstolo que desse sua opinião sobre o que ele, Cristo, acabara de falar. Maria Madalena complementava com acerto a maioria das opiniões dos apóstolos até que Pedro disse a Jesus:
– “Senhor, não permita que esta mulher fale sempre, porque ela ocupa o nosso lugar e não nos deixa falar”. (Evangelho de Valentino, Cap VIII, N. 5).
Jesus ignorou o pedido de Pedro e respondeu-lhe apenas “que adiantasse e falasse em quem atuava a inteligência”.
No Gnosticismo, as mulheres eram sacerdotisas, mestras e profetizas e tinham poder para repassar os ensinamentos de Cristo.

SER DE LUZ
Não fora obscurecida, Maria Madalena seria o contraponto de Cristo. Cristo e Madalena representariam a soma da energia e do sentimento religioso masculino e feminino.
Assim como as mulheres permaneceram obscurecidas na sociedade por dois milênios, Madalena permaneceu anônima no Cristianismo, vista apenas como a prostituta convertida. Madalena é muito mais.
Ela foi a líder entre as mulheres que seguiam Jesus. Ela ajudou a sustentar o ministério de Jesus. Foi ela quem melhor compreendeu a mensagem de Jesus, a ponto de despertar ciúmes dos Apóstolos.

Ela é coragem e lealdade, pois se manteve presente ao pé da cruz, enquanto os homens fugiram. Ela é dedicação, pois percorreu as ruas de Jerusalém na escuridão da madrugada para ir ao sepulcro a fim de preparar o corpo de Jesus para o sepultamento. Nenhum homem a acompanhou.
Ela foi a primeira testemunha da ressurreição de Cristo. Madalena foi a primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado. Ela foi a primeira pessoa com quem Cristo ressuscitado conversou. Ela foi a mensageira que levou aos Apóstolos a notícia da ressurreição do Senhor.
Tudo isso numa época em que as mulheres não tinham credibilidade. Os apóstolos não acreditaram nas mulheres (Madalena inclusive) quando elas falaram que não encontraram o corpo de Jesus no sepulcro e até acharam que elas deliravam (São Lucas, 24, 11).
Santa Maria Madalena, que foi digna de tais ações, é um ser iluminado que merece enorme respeito e veneração.
Cláudio Duarte,
Colunista e colaborador do PortaliMulher.
3 Comentários
Consegui abrir no link como era antes. Que bom! B3lo texto Cel Claudio, ainda ontem revi o filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson e vi como as Marias da Bíblia se confundem. A Maria Madalena, era a mulher que seria apedrejada por adultério. Há cenas de recordações de Jesus, Maria sua mãe e Maria Madalena durante o percurso até o calvário. E a de Maria Madalena é a que Jesus começa a escrever no chão e propõe que aquele que não tivesse pecado, atirasse a primeira pedra.
Já um pastor adventista, estudioso diz que Maria Madalena pode ter sido uma órfã que sofreu muitos abusos na infância e se tornou uma prostituta na idade adulta para sobreviver. Vivia doente pela culpa e não via saída para sair e tinha surtos psicóticos e Tida como endemoninhado. Há muitas versões para essa mulher ímpar que acompanhou Jesus e sua mãe até o final.
Parabéns pelo texto maravilhoso e a escolha de imagem.
Didático… Bela aula… Assino junto.
Parabéns pelo maravilhoso texto. Didático e profundamente sensivel.