Por Wanderlei Guedes da Silva
Nunca pretendi escrever compêndios de filosofia nem de autoajuda. Primeiro porque não tenho competência para tanto. Segundo porque não devemos nos intrometer onde não temos direito de opinião. Apenas me meto a fazer conjecturas baseadas nas percepções do comportamento de pessoas, mormente dos casais com os quais convivi e convivo em amplo espectro.
Disse o escritor e pensador Antoine de Saint-Exupéry que nos tornamos eternamente responsáveis por tudo aquilo que cativamos. Filosofia que pode ser contestada, readequada e intertextualizada, dependendo de múltiplas variáveis, levando-se sempre em consideração que ninguém é exatamente igual, nem mesmos seres vivos gêmeos.
No campo do amor, então, a assertiva pode não ter essa conotação tão radical e definitiva. Posso amar alguém que não me ama e não amar a quem me ama. O feliz premiado com o amor recebido não se obriga à contrapartida. O amor acontece simplesmente; não se compra nem se configura por obrigação. Nasce de quase nada e morre de quase tudo!
Infinidade de variantes, como gosto, cheiro, aparência, jeito, manias, preferências, culturas, ideologias e outras mais, contribuem para que não haja reciprocidade de sentimentos. E, fatalmente, um dos dois envolvidos na relação sofrerá e terá perdas inomináveis e até irreparáveis.
Adaptações e adequações, seguindo a via dos interesses inconfessos, podem até prolongar a relação de aceitação a uma pessoa por quem não se sente amor. A amizade, o bom caráter, a índole, o bom trato, o compartilhamento de ações e reciprocidade em tudo o mais serão fatores da flexibilização da vivência a dois.
Muitas vezes o amor pode ser o fator que atrapalha a união. Mormente quando aparece o sentimento de posse ou o malfadado ciúme, sentimento mortal. Muitos casais convivem em regime de simbiose, cada um trocando com o outro os substratos de que precisam para saciar suas vontades e necessidades básicas.

Mas há também o relacionamento chamado de “sanguessuga”, no qual apenas um tira proveito do outro. É o comensalismo, que gera tristeza e melancolia no espoliado.
Antigamente as mulheres se sujeitavam a viver com determinados tipos desumanos e brutos, porque não tinham opção de vida e de trabalho. Se sujeitavam porque, apesar do sofrimento pelo qual padeciam, tinham teto, alimentação e o carinho dos filhos. Sofriam caladas e, quando muito, não reclamavam, pois no seu próprio jargão o comportamento dos desajustados era natural. “É assim mesmo!”, diziam conformadas.
E conformadas, levavam aquela vida miúda de trato e de carinho, situação que compartilhavam com tantas outras que também nasceram com a mesma sina: servir ao senhor feudal da casa.
Onde não há conquista, não há a obrigação da gratidão. E, se não há respeito, não há consideração e sim resignação pela impotência da revolta.
A gratidão é a contrapartida natural do reconhecimento das boas ações recebidas.
Wanderlei Guedes da Silva, dentista, músico, compositor, poeta e escritor casual, que retrata fatos e episódios que vive ou assiste.